Lobo Solitário e a sua publicação pirata no Brasil
- Lámen Otaku
- 23 de fev.
- 3 min de leitura

Lobo Solitário foi o primeiro mangá a ser publicado oficialmente no Brasil, pela editora Cedibra, em 1988. No entanto, o Pipoca & Nanquim descobriu que a obra já havia tido uma versão pirata lançada em 1972 — 16 anos antes de sua publicação oficial no país — na revista Clássicos Realistas de Contos e Quadrinhos, pela editora Edrel.
Contexto rápido: o que é Lobo Solitário?

Pra situar rápido: Lobo Solitário (Kozure Ōkami) é o mangá de Kazuo Koike (roteiro) e Goseki Kojima (arte), publicado originalmente no Japão a partir de 1970.
A história acompanha Itto Ogami, ex-carrasco oficial do xogunato, traído e desonrado, que parte pelo Japão feudal com seu filho Daigoro num carrinho de bebê, virando mercenário e seguindo um caminho de vingança. É uma obra marcada por violência seca, contemplação, filosofia e uma arte absurdamente detalhada — especialmente em expressões faciais e ambientação.
A Revista "Clássicos Realistas de Contos e Quadrinhos"

A publicação da Edrel é uma revista de variedades que mistura contos, crônicas, piadas e muitas fotos de nudez artística, típicas das revistas eróticas da época. O curioso é que a capa não faz qualquer menção ao Lobo Solitário, exibindo ilustrações genéricas de soldados e espiões, o que ajudou a manter esse conteúdo "escondido" por décadas, inclusive de bases de dados como o Guia dos Quadrinhos.
Uma Versão "Pirata" e Redesenhada
Diferente de uma tradução oficial, a versão da Edrel é descrita como um caso de apropriação indébita ou "picaretagem" editorial. Os editores não creditaram os autores originais japoneses e o conteúdo passou por mudanças drásticas:
Autoria Falsa: A revista credita brasileiros pelo roteiro e arte, sem dar os devidos créditos aos autores originais. Paulo (sim, apenas “Paulo”) é creditado pelo argumento e arte final, o tema é de Mario Fukue, o esboço é de Wilson Hisamoto, a auxiliar de arte é Alice Fukue, as legendas são de Roberto Fukue e o arquivo é de Sérgio Fukue.
Arte "Calcada": A história foi inteiramente redesenhada por cima do original. Embora as proporções sejam parecidas (indicando o uso de papel vegetal ou luz de fundo), o traço é muito mais grosseiro, perde detalhes, hachuras e as expressões faciais ricas de Goseki Kojima.


Cortes e Edições: Cerca de 24 páginas iniciais de meditação foram cortadas por não terem balões de texto. Páginas duplas foram remontadas para caber em uma página só ou giradas em 90 graus.

Tradução Livre: O protagonista Itto Ogami é chamado de "O Abominável" e tratado como um caçador de recompensas. Os diálogos foram simplificados e, em muitos casos, alterados para um contexto que foge da filosofia budista original, chegando a citar "Deus" em vez de termos orientais.

Importância Histórica
Apesar da qualidade inferior e da falta de licenciamento, essa edição é possivelmente a primeira publicação de Lobo Solitário em todo o mundo ocidental, antecedendo as edições americanas e europeias.
A editora Edrel tinha uma forte ligação com a comunidade nipônica do bairro da Liberdade, em São Paulo, o que explica o acesso precoce aos mangás originais. O vídeo conclui que, embora a versão da Cedibra (1987) continue sendo a primeira publicação oficial e fiel, a "pérola" da Edrel é um registro fascinante de como o mercado brasileiro operava de forma artesanal e, por vezes, informal nos anos 70.
Abaixo, você pode conferir o vídeo completo do Pipoca & Nanquim, no qual eles contam toda a história e comparam as duas versões.



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